Com o intuito descontraído, no entanto, sério. Ao mesmo tempo, satírico, onde os pormenores da vida podem ser vistos de modo lúdico, para não dizer, utópico. Falaremos do que quisermos, sem censura, abertamente, de forma escrachada, quebrando paradigmas, dogmas, traumas, conceitos estabelecidos e verdades absolutas. Obviamente, com um linguajar moderado, mas não rodeado de pudores. Pessoas criativas, inteligentes, sarcásticas, satíricas, líricas, irônicas. Sejam bem-vindas!

sábado, 14 de abril de 2007

Alforria

De algumas coisas sentirei saudades, é verdade. Dos amigos, das gargalhadas escondidas, das conspirações no horário do almoço, da adrenalina de estar fazendo algo considerado ilícito. No entanto, não sei quais lembranças me recordo mais, se as de alegria ou as de indignação.

Meus últimos meses, na empresa, até que nem foram muito torturantes, pois, eu já estava calejado. Chegava atrasado sem nenhum peso na consciência, tinha a sensação de dever cumprido. Afinal de contas, se continuasse, nunca sairía daquela cadeira para outra função. Não havia possibiliade de assenção. O trabalho era repetitivo e rotineiro. Novidades? Só quando o sistema dava pane, aí ficávamos todos olhando um para o outro. Mesmo sabendo que o reparo demoraria, tínhamos que ficar lá, inertes.

Ao amanhecer, meu corpo não mais obedecia aos comandos elétricos enviados por meu cérebro. Se vacilasse, minhas roupas iriam lá fazer o serviço por mim, pois, já conheciam de cor e salteado. Era um autômato. Sem perspectiva de promoção. Um pouco mais e o que eu iria conseguir era uma puta dor na coluna e adquirir uma L.E.R (Lesão por Esforços Repetitivos). Ia virar um vegetal, pois, a função não exigia esforço mental. Sem falar nas injustiças cometidas. O empresariado brasileiro ainda tem muito o que aprender em termos de gestão, principalmente, de pessoal. Costumam tratar seus funcionários como se, somente eles, precisassem do emprego. É uma relação de troca, uma mão lava a outra.

Nunca estive no chamado "primeiro mundo", hoje, hemisfério norte. Mas, segundo ouvi falar, de pessoas por experiência própria e coisas que li, lá em cima não é o céu, porém, as relações de trabalho são outras. Aqui, somos remanescentes do sistema das capitanias hereditárias e guardamos o marco de termos sido o último país a abolir o trabalho escravo, na teoria. O assédio moral é uma covardia, pois, os arrogantes são covardes, usam da menor influência sob um indivíduo qualquer para massacrá-lo. É a tal dominação burocrática. Enquanto o sujeito estiver em solo da empresa, sua vida não mais lhe pertence. Dê poder ao homem e saberá quem és.

Todavia, você tem o livre arbítrio. Pode oferecer sua mão-de-obra e legitimar o poder de seu superior ou...pedir alforria e voltar a viver.

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