Com o intuito descontraído, no entanto, sério. Ao mesmo tempo, satírico, onde os pormenores da vida podem ser vistos de modo lúdico, para não dizer, utópico. Falaremos do que quisermos, sem censura, abertamente, de forma escrachada, quebrando paradigmas, dogmas, traumas, conceitos estabelecidos e verdades absolutas. Obviamente, com um linguajar moderado, mas não rodeado de pudores. Pessoas criativas, inteligentes, sarcásticas, satíricas, líricas, irônicas. Sejam bem-vindas!

sábado, 14 de abril de 2007

Now what?

E agora?

"Não sei pra onde estou indo, mas sei que estou no meu caminho".

"Mas como vai você saber, sem tentar?"

"Do passado me esqueci, no presente me perdi, se chamarem, diga que eu saí".

"No presente, a mente, o corpo é diferente e o passado é uma roupa que não me serve mais".

O discussão interna na minha mente remetia às indagações levantadas, antes, por Raul e Elis. Segui suas sugestões. Resolvi, então, chutar o balde. O futuro? A Deus pertence, se é que Ele existe. Estava na hora de tocar o barco, seguir meu rumo, mesmo que incerto.

Se por um lado, estava estava livre do trabalho escravo, por outro, começava a faculdade, que para mim é um prazer freqüentar, contrariando e muito o patronado. Escravo sim, pois, segundo a ideologia anarquista: "todo trabalho é escravo", por mais que nos esforcemos em dizer que fazemos o que gostamos. Na verdade, se pudéssemos, não trabalharíamos né? A não ser por hobby.

No entanto, frequentamos a universidade na tentativa de amenizar o sofrimento cotidiano e nos iludirmos com o chamado "nível superior", que serve para diferenciar os "letrados" dos "peões". Além de servir como afronta ao estabilishment, pois, funcionário qualificado é funcionário exigente, portanto, requer, supostamente, maior remuneração.

Na Bahia, a ordem é não pensar. Os maiores índices de analfabetismo e desemprego, dentre os estados nordestinos, está aqui. Conseqüentemente, com um ensino secundário deficiente, o quociente resultará na oferta, em larga escala, de mão-de-obra mais barata e é isso o que importa. No país, um dos maiores concentradores de renda do mundo, ir para a graduação significa tirar a sorte grande. Por outro lado, muitos saem frustrados das universidades, ora por não saber escolher seus caminhos, ora por não receber o feedback esperado, ora por exercer funções que não estavam no script.

É preciso ousar. O caminho do risco é o sucesso. Sapere aude (ouse saber).

Alforria

De algumas coisas sentirei saudades, é verdade. Dos amigos, das gargalhadas escondidas, das conspirações no horário do almoço, da adrenalina de estar fazendo algo considerado ilícito. No entanto, não sei quais lembranças me recordo mais, se as de alegria ou as de indignação.

Meus últimos meses, na empresa, até que nem foram muito torturantes, pois, eu já estava calejado. Chegava atrasado sem nenhum peso na consciência, tinha a sensação de dever cumprido. Afinal de contas, se continuasse, nunca sairía daquela cadeira para outra função. Não havia possibiliade de assenção. O trabalho era repetitivo e rotineiro. Novidades? Só quando o sistema dava pane, aí ficávamos todos olhando um para o outro. Mesmo sabendo que o reparo demoraria, tínhamos que ficar lá, inertes.

Ao amanhecer, meu corpo não mais obedecia aos comandos elétricos enviados por meu cérebro. Se vacilasse, minhas roupas iriam lá fazer o serviço por mim, pois, já conheciam de cor e salteado. Era um autômato. Sem perspectiva de promoção. Um pouco mais e o que eu iria conseguir era uma puta dor na coluna e adquirir uma L.E.R (Lesão por Esforços Repetitivos). Ia virar um vegetal, pois, a função não exigia esforço mental. Sem falar nas injustiças cometidas. O empresariado brasileiro ainda tem muito o que aprender em termos de gestão, principalmente, de pessoal. Costumam tratar seus funcionários como se, somente eles, precisassem do emprego. É uma relação de troca, uma mão lava a outra.

Nunca estive no chamado "primeiro mundo", hoje, hemisfério norte. Mas, segundo ouvi falar, de pessoas por experiência própria e coisas que li, lá em cima não é o céu, porém, as relações de trabalho são outras. Aqui, somos remanescentes do sistema das capitanias hereditárias e guardamos o marco de termos sido o último país a abolir o trabalho escravo, na teoria. O assédio moral é uma covardia, pois, os arrogantes são covardes, usam da menor influência sob um indivíduo qualquer para massacrá-lo. É a tal dominação burocrática. Enquanto o sujeito estiver em solo da empresa, sua vida não mais lhe pertence. Dê poder ao homem e saberá quem és.

Todavia, você tem o livre arbítrio. Pode oferecer sua mão-de-obra e legitimar o poder de seu superior ou...pedir alforria e voltar a viver.

Milosevic foi para o espaço...

Um pouco depois do carnaval, início do ano letivo. Empolgação, novas amizades e, também, novos compromissos. Um universo novo, a faculdade. Hora de colocar as idéias em ordem ou fazer uma tempestade delas, o 'brainstorm', como costumam dizer. Esses estrangeirismos...sempre nos acompanhando.

Logo de cara, ganhei de presente de aniversário um bolinho surpresa, com direito a guaraná e tudo. Era a primeira vez que isso acontecia, pelos menos na escola, aos 25. Em outras oportunidades, ou o ano letivo ainda não havia começado ou, então, ninguém havia se enturmado. Esse é o lado ruim de aniversariar no começo de ano.

Ainda no mesmo mês, março, o Brasil aguardava ansioso o envio de seu primeiro homem ao espaço. Em 2006, Marcos Pontes fora enviado do Cazaquistão para cumprir sua odisséia e entrar para a história na galeria do Museu Gagarin, primeiro homem a pisar em solo extra terreno. O veículo era o ônibus espacial Soyuz TMA-8, que o levaria à Estação Espacial Internacional, numa missão que duraria oito dias à bordo. O presidente Lula o comparou a Ayrton Senna, que costumava ocupar o topo do pódio com sua bandeira.

12 de março, o mundo é surpreendido com a notícia da morte do ditador sérvio Slobodan Milosevic. O homem, responsável pela limpeza ética na Bósnia, era acusado de ter cometido por volta de 60 crimes, no entanto, foi encontrado morto em sua cela. A alegação, segundo boletins oficiais, fora de que ele sofreu um "ataque cardíaco". Pior que sua morte, foi o fato de o Tribunal Internacioal de Haia, na Holanda, àquela altura, não ter conseguido executar nenhum veredicto. Milosevic, que estava detido desde 2001, foi o primeiro chefe de Estado a ser indiciado por crimes contra a humanidade. Vai sem deixar saudades.

Saí do emprego...

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Tempo de recomeçar

A novidade veio dar na praia. A novidade era o máximo. Veio fevereiro. De um lado, esse carnaval. Do outro, a fome total. Ano de copa, eleições presidenciais e decisões. Segundo o horóscopo chinês, era o ano do galo, portanto, prometia. Seria um ano de grandes surpresas. Logo eu, que detesto supresas, pois, de fato, raramente me agradam.

Sendo assim, o ano do galo começou com a gripe do frango aterrorizando boa parte da ásia. No oriente médio o Hammas chegava ao poder. Por outro lado, uma boa notícia para a América do Sul e uma má notícia para o Brasil, o líder indígena Evo Morales assumia a presidência da Bolívia e nacionalizava as petrolíferas do país.

Em solo tupiniquim, eu dava entrada na papelada da bolsa, que, felizmente, após toda a morosidade do processo burocrático, fora aprovada. Afinal de contas, eu merecia. Depois de começar o ano de maneira desastrosa, era digno que fosse recompensado. Era um momento difícil o qual passava, tive a perda de um ente querido. Uma pessoa muita próxima, que me custaria a superar. Carnaval, ao contrário dos últimos anos, fiquei por aqui mesmo. Precisava me recompor de sucessivos baques.

Apesar de tudo, não tenho dinheiro, mas sou um afortunado de amigos. Basta estar com eles e as angústias se vão. São como uma espécie de ópio para mim, euforia momentânea e rápida e, quando percebo que passou, voltam os pensamentos. Mal de piscianos. Pensam demais.

Amigos...muitos tardo a ver, mas me alegra saber que os tenho.

Mais vivo do que nunca...

Depois do acidente, me sentia diferente, como se não mais fizesse parte desse mundo. Se eu já pensava não fazer parte desse mundo estranho, onde as pessoas são perversas e massacram umas às outras por motivos banais, o acontecido reforçou essa tese. Passei a sintonizar com Raulzito e, muitas vezes, pedi ao disco voador pr'a me levar embora daqui.

Ainda mais que, não suportava a idéia de trabalhar ter que encarar a senzala, por mais um dia sequer. Era torturante. O corpo já não mais obedecia aos comandos do cérebro. Fazia incrível esforço para levantar. As relações de trabalho mais pareciam romance em crise. E pior, daqueles que você sente que não tem mais como contornar a situação. E ao sair de casa, se olhasse para trás, veria meu ócio criativo rindo da minha cara de desânimo.

Se tinha um lado positivo da coisa, eram as amizades. Essas, eu não esqueço. Somente aquelas que vale à pena lembrar, as outras foram apagadas do dísco rígido. O que me sustentava era o fato de eu ter sido aprovado no vestibular. Tristeza e alegria passaram a formar um casal contraditório em minha mente. Tristeza porquê a faculdade era particular e eu teria que desenbolsar um boa nota por mês, além de ter de prolongar o calvário no trabalho para sustentar a facul. Havia, nesse meio-termo, um misto de angústia por não ter conseguido o que é meu de direito: uma educação pública de qualidade e suficente para todos. Alegria por, finalmente, ter conseguido o que queria.

Quando realmente pensava em desistir de tudo, facul e trabalho, fui contemplado com uma bolsa de estudos. Oh, glória! Um sujeito, azarado, como eu, ganhou a sorte máxima da loteria da educação no Brasil. Pois, se existe, ela vem em forma de uma vaga na universidade pública. Uma bolsa praticamente equivalia ao mesmo, apesar da qualidade do ensino não terem o mesmo prestígio e equivalência.

Daí por diante, passei a não pensar que a vitória estava perdida. Bastava, apenas, ter fé na vida.

No purgatório, céu ou inferno? Onde eu estava?

Enquanto o carro subia o passeio e invadia a pequena escada de três degraus, meu corpo lutava com minha alma e a puxava de volta para seu lugar de direito. Até o momento, não distingüia sonho de realidade. Acordei! E custava a acreditar aquilo que meus olhos me mostravam.

Alguém anotou a placa? Deviam estar muito ocupados com o rompimento do ano novo. Passei a viver o inferno de Dante, enquanto aguardava o reboque. As meninas? Assustadas. Coitadas, estavam dormindo e acordaram tão bruscamente. Pelo menos, se houvesse acontecido algo pior, estavam em sono profundo. Menos mal que ninguém se machucou. Mas o carro...por pouco não virou sucata. Dos males, o menor.

Ressucitei. Se tivesse morrido, iria sem me despedir. A partir de então, ano novo, vida nova. Com algumas dores lombares, é verdade. Não posso deixar de mencionar. O que eu planejei para o primeiro dia do ano foi ir à praia, pegar umas ondas, pois, era um domingo e, na segunda, ir trabalhar feliz. Queria estar quebrado, mas pelo mar. Trabalhar eu fui, mas não feliz, pois, não consegui um atestado. Por mais visível que sua agonia esteja, o patrão não está nem aí.

Passei a acreditar, então, que, começara o ano com o pé esquerdo. Apesar de não ser superticioso. Não tanto.